{"id":379,"date":"2024-10-26T22:12:20","date_gmt":"2024-10-27T01:12:20","guid":{"rendered":"https:\/\/rositaueno.com\/es\/?p=379"},"modified":"2024-10-26T23:53:44","modified_gmt":"2024-10-27T02:53:44","slug":"16-de-noviembre-dia-de-san-cristobal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rositaueno.com\/es\/16-de-noviembre-dia-de-san-cristobal\/","title":{"rendered":"16 de noviembre \u2013 D\u00eda de San Crist\u00f3bal"},"content":{"rendered":"<p>Recentemente viajei para Cuba, a trabalho. Em Havana, tive a oportunidade de visitar o \u201cTemplete\u201d, local ic\u00f4nico mencionado em um conto que traduzi em 2010 e que me rendeu um pr\u00eamio chamado \u201cPr\u00eamio Novos Tradutores do Brasil\u201d. Para quem tiver interesse em ler, o conto chama-se originalmente \u201cDarle\u00a0vueltas a una ceiba\u201d, do escritor cubano Guillermo Cabrera Infante ou, \u201cDar voltas a uma paineira\u201d, na minha vers\u00e3o.\u00a0\ud83d\ude0a\u00a0De forma l\u00fadica, o conto aborda a tradi\u00e7\u00e3o do Dia de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, santo patrono de Havana. Fazendo refer\u00eancia a esta comemora\u00e7\u00e3o, hoje p\u00fablico, pela primeira vez, a minha tradu\u00e7\u00e3o do conto. Espero que gostem! Boa leitura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Dar voltas a uma paineira<\/strong><br \/>\nGuillermo Cabrera Infante<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o sei que raio deu nesta mulher. Est\u00e1 a\u00ed dando voltas como cavalinho de carrossel ao redor dessa \u00e1rvore sem dizer nada, simplesmente dando voltas e mais voltas. J\u00e1 est\u00e1 me cansando. Sempre com suas encena\u00e7\u00f5es, suas tolices e suas bisbilhotices. Acreditando nesse lixo todo. Ah, n\u00e3o. Comigo n\u00e3o. J\u00e1 lhe disse que n\u00e3o caio nessa. Vejam como est\u00e3o: parecem idiotas. N\u00e3o vou me meter nisso. Disse-lhe bem claro esta manh\u00e3, quando se levantou com essa asneira na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>A culpa n\u00e3o \u00e9 dela, \u00e9 dessa fulana que se mudou recentemente para o corti\u00e7o e veio parar no quarto ao lado. Ela passa todo o santo dia enfiada em nossa casa e dizendo minha irm\u00e3 fa\u00e7a isso, minha irm\u00e3 fa\u00e7a aquilo, minha irm\u00e3 aquilo tamb\u00e9m e mais o outro. Quero ver se no fim do m\u00eas, quando vierem lhe cobrar o aluguel, vai querer que o paguemos em compensa\u00e7\u00e3o pelos conselhos que d\u00e1 \u00e0 minha mulher todo santo dia. Esta aporrinha\u00e7\u00e3o de agora \u00e9 coisa dela. Com certeza, \u00e9 sim. Aposto cem pesos contra uma ponta de cigarro que foi ela quem enfiou isso na cabe\u00e7a da abestalhada da minha mulher, que acredita em tudo.<\/p>\n<p>Ali est\u00e1 me chamando com gestos. Mas pode lhe cair o bra\u00e7o fazendo macaquices que eu n\u00e3o vou l\u00e1. Fico aqui sentado onde estou e fim de papo. Se n\u00e3o fosse porque n\u00e3o pode falar j\u00e1 estaria me chamando aos berros. Agora tem que se conformar em gesticular a manh\u00e3 toda ou at\u00e9 que o sol lhe asse aquela m\u00e3ozinha e essa lhe caia enegrecida ao ch\u00e3o. T\u00e3o festeira. Tudo para ela \u00e9 um alvoro\u00e7o. Esta manh\u00e3 me pregou um tremendo susto porque me acordou fazendo caretas e revirando os olhos e dizendo jucujucu como se tivesse um gole de \u00e1gua na boca e n\u00e3o pudesse falar. Eu ainda estava meio dormido e o que penso: aconteceu-lhe alguma coisa ruim, e me levanto num pulo s\u00f3, e come\u00e7o a sacudi-la pelos ombros. Endoideceu, disse a mim mesmo. Porque o seu velho est\u00e1 na Mazorra h\u00e1 mais ou menos dez anos e uma irm\u00e3 sua botou fogo em si mesma, e tem outra que nasceu assim, toda manqueja e tudo isso, e eu acho que ela tamb\u00e9m passou para o lado dos bobos. Depois de conseguir escapulir ela vai at\u00e9 a mesa e pega um papelzinho que est\u00e1 ali preparadinho e tudo e me mostra. Toba, diz o recadinho, lembre-se que oje \u00e9 o dia. O corti\u00e7o com dois esses dezeja\u00a0Felisidade. Perdoe que n\u00e3o fale com voc\u00ea no dia de teu santo. Veste a camisa branca de bot\u00e3o, as cal\u00e7as brancas e os sapatos bicolores que vamos ao templete. Clodo te ama. Bom, de modo que essa fulana lhe enfiou na cabe\u00e7a a ideia de ir ao Templete e dar voltas \u00e0 paineira que h\u00e1 ali. Agora, n\u00e3o h\u00e1 quem me meta em nada disso. N\u00e3o senhor. De jeito nenhum, com seu mau agouro e tudo, como dizia Padrinho. Eu ali N\u00c3O entro. A\u00ed est\u00e1 me chamando t\u00e3o apressadinha como nesta manh\u00e3, quando ainda cedo j\u00e1 me acordava. Felicidades te deseja o corti\u00e7o com dois esses. As coisas que enfiam na cabe\u00e7a desta mulher. Bom, vejamos, j\u00e1 que era o dia do meu santo bem podia me deixar dormir pela manh\u00e3, que j\u00e1 nem aos domingos se pode descansar em paz sem que venha um flagelo desses pra azucrinar o dia da gente.<\/p>\n<p>Agora, o que eu fiz foi tomar meu pingado muito tranquilo, muito confortavelmente, o r\u00e1dio ligado, ouvindo como o velho dom Carlos, o Professor Gardel, elevava um tango \u00e0s alturas pela manh\u00e3. Depois ouvi meu par de boas milongas e fumei dois cigarrinhos seguidos. E ela pra l\u00e1 e pra c\u00e1 escrevendo papeizinhos e mais papeizinhos. Parecia uma recenseadora do censo que tivesse ca\u00eddo na vila. Toba, se apresse por favor. J\u00e1 nem os assinava. Nos \u00faltimos eu j\u00e1 estava a ponto de explodir. Por pouquinho a fa\u00e7o falar! Crist\u00f3bal pelos restos de tua m\u00e3e Tomasa apresse-se. Acontece que tive pena dela, que apesar de tudo \u00e9 uma preta muito companheira e muito trabalhadeira e peguei e me levantei. Agora, isso sim, levantei-me com toda minha santa calma e me vesti bem (bem devagarzinho) sem pressa. Depois desci as escadas muito cheio de mim e acendi outro cigarrinho na rua e fui at\u00e9 a esquina pra tomar um cafezinho de cinquenta centavos. Cruz credo! \u00c9 uma calamidade que aos domingos n\u00e3o abram o botequim da rua Inquisidor e a gente tenha que caminhar at\u00e9 o Cais da Luz pra tomar um bom caf\u00e9. Mijo de \u00e9gua foi o que tomei. Tive que enxaguar a boca com \u00e1gua na frente do sujeito que vende o caf\u00e9 e tudo. Depois, passinho por passinho, viemos para o Templete.<\/p>\n<p>Pelo caminho cada vez que Clodo se encontrava com um conhecido ou com uma amiga ou com um parente (porque esta mulher tem mais fam\u00edlia que os Vald\u00e9s) tinha que v\u00ea-la, cumprimentando com a cabe\u00e7a, assim, baixando-a, como se fosse uma duquesa russa ou coisa parecida, sem dizer nunca nadinha. Eu preferia que tiv\u00e9ssemos ido de \u00f4nibus! Mas ela sabe tudo e me levou caminhando pela rua de S\u00e3o In\u00e1cio de modo que n\u00e3o tivesse que se encontrar com essas amigas das ruas Inquisidor e Lamparilla, que s\u00e3o quase umas seis mil negrinhas e todas s\u00e3o costureiras e todinhas, todinhas usam \u00f3culos e sempre est\u00e3o inspecionando todos os que passam com seus vinte e quatro mil olhos.<\/p>\n<p>Quando chegamos \u00e0 Pra\u00e7a de Armas aquilo j\u00e1 estava cheio de gente e at\u00e9 a prefeitura estava aberta e a banda municipal por ali com Gonzalo Roy e tudo o mais realizando o dia de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, de maneira que tivemos que entrar no meio da multid\u00e3o e grudar na grade do Templete. E at\u00e9 a\u00ed chegou meu amor.<\/p>\n<p>Neguei-me a todo custo a entrar e ent\u00e3o ela come\u00e7ou a me arrastar por um bra\u00e7o e depois por uma manga, at\u00e9 que finalmente ficou fazendo assim com a m\u00e3o e me afastei dali como cachorro com o rabo entre as pernas e me perdi atr\u00e1s da tuba e da batuta de Gonzalo Roy e do ru\u00eddo tremendo que fazia a banda enquanto tocavam o Hino invasor. Depois a vi, quando se juntou ao redor da paineira com todo aquele povo a quem aquela fulana que vive no quarto ao lado deve ter enfiado na cabe\u00e7a essa ideia de que quando se d\u00e1 a volta ao redor da \u00e1rvore perto de um milh\u00e3o de vezes sem falar nem meia palavra, nem um suspiro e se vai pedindo uma coisa, at\u00e9 que termine a missa, a \u00e1rvore ou o Templo ou o padre que depois asperge com seus serm\u00f5es o tronco da \u00e1rvore ou Gonzalo Roy ou Deus, te concedem. E assim o senhor pode ver as mulheres e alguns homens tamb\u00e9m, n\u00e3o duvide, de tudo h\u00e1 no mundo, dando a volta \u00e0 \u00e1rvore, calad\u00f5es mas pedindo, pedindo, pedindo.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1 ela, Clodo P\u00e9rez, minha mulher, t\u00e3o cabe\u00e7a-dura, ainda dando a volta ao redor do pau. Porque isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma paineira nem metade de uma de t\u00e3o seca que est\u00e1. Por que a \u00e1rvore mesma n\u00e3o se faz um milagre e faz brotar folhas de novo? Clodo vai dizer que \u00e9 porque a paineira n\u00e3o pode dar a volta em torno de si mesma, com certeza, e pedindo seu milagrezinho. Todo o mundo j\u00e1 foi para casa e os da orquestra se recolheram e Gonzalo Roy a esta hora deve estar dormindo sua sesta porque passou toda a santa manh\u00e3 dirigindo a banda como se estivesse morto de sono, de modo que deve estar sonhando que vem uma mulata gostosona e lhe diz Cecilia Vald\u00e9s \u00e9 meu nome. E eu estou aqui fumando meu cigarrinho n\u00famero noventa e nove e olhando como minha mulher engole essa merda milagrosa. Fumando espero por Clodomira P\u00e9rez. Ali est\u00e1 ela me chamando outra vez e dizendo como o telegrafista do Morro, por gestos, que venha eu tamb\u00e9m ao carrossel da paineira. A mim.<\/p>\n<p>Fumar \u00e9 um prazer, sensual, ideal, ritual.<\/p>\n<p>Mas pensando melhor vou. Eu n\u00e3o acredito em nada disso, mas vou e vou come\u00e7ar a dar voltas ao vegetal e tudo. Ela vai ficar muito contente e vai achar que entrei na dela. A coitadinha: ela me vendo aqui s\u00f3 sentadinho na sombra, resguardado do sol, fumando tranq\u00fcilo meu cigarro cem. Aposto que acha que eu n\u00e3o abri a boca em toda a santa manh\u00e3, que n\u00e3o disse palavra. Vou mat\u00e1-la de desilus\u00e3o? Eu tamb\u00e9m vou dar minha volta boba \u00e0 paineira.<\/p>\n<p><em>Guillermo Cabrera Infante (1929-2005)<\/em><em><br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Rosa Maria Severino Ueno<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por\u00a0Rosita Ueno\u00a0&#8211;\u00a0novembro 16, 2023<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recentemente viajei para Cuba, a trabalho. Em Havana, tive a oportunidade de visitar o \u201cTemplete\u201d, local ic\u00f4nico mencionado em um conto que traduzi em 2010 e que me rendeu um pr\u00eamio chamado \u201cPr\u00eamio Novos Tradutores do Brasil\u201d. 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